
Pr. Paulo Henrique P. Cunha
A VISÃO ROMÂNTICA QUE A REALIDADE CORRIGE
Antes de ser missionário na Índia, eu já estava ativamente envolvido na evangelização de minha cidade natal.
Lembro-me de momentos em que estava a evangelizar em alguns lugares difíceis na zona rural da nossa cidade e precisava me separar da equipe para alcançar uma casa isolada, atravessando um trecho de mato fechado ou subindo um morro íngreme.
Nessas caminhadas solitárias, eu me imaginava sozinho pregando em solo indiano. Era, reconheço hoje, uma visão claramente romântica e imatura da vida missionária, mas ela capturava, sem eu perceber, algo que nenhum relatório ou conferência costuma anunciar com honestidade: o peso real da solidão no campo.
O SILÊNCIO QUE A PARTIDA DEIXA
Quando estava me preparando para ir à Índia, fizemos um estágio missionário na fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Tivemos a oportunidade de ouvir um experiente missionário naquele campo, e o texto que ele escolheu ficou gravado em minha memória: “Eis que vem a hora e já é chegada, em que sereis dispersos, cada um para sua casa, e me deixareis só; contudo, não estou só, porque o Pai está comigo” (Jo 16.32).
Sua palavra foi breve, mas densa: o mesmo que aconteceu com Jesus diante dos discípulos acontece, em menor escala, com o missionário. As pessoas voltam para suas casas, suas rotinas, seu trabalho — e quem ficou no campo permanece só, frequentemente esquecido, ou quase.
Esse fenômeno tem um nome: descompasso (gap) missionário. Quem passa anos num campo transcultural caminha numa direção, enquanto sua igreja, seus amigos e sua família seguem em outra. Com o tempo, as diferenças se aprofundam de forma quase imperceptível.
Conversas que antes fluíam naturalmente tornam-se difíceis; referenciais comuns desaparecem; e os vínculos, sem o oxigênio da interação cotidiana, vão se tornando mais frágeis. Não por maldade ou indiferença, mas pelo simples peso da distância — não apenas geográfica.
Como alerta a especialista em cuidado missionário Antonia Leonora van der Meer, “uma reclamação comum é que os missionários não têm com quem desabafar”, e esse isolamento, silencioso e progressivo, cobra um preço alto e raramente mencionado.
OS AMIGOS QUE FICAM QUANDO OS OUTROS PARTEM
É justamente nesse cenário que a frase de John Collins Churton adquire todo o seu peso: “Na prosperidade, nossos amigos nos conhecem; na adversidade, nós conhecemos nossos amigos”. No começo da jornada missionária, quando o entusiasmo do envio ainda está fresco, muitos se aproximam, oram, contribuem e acompanham.
Mas, à medida que os anos passam, que a distância aumenta e que a vida segue seu curso de cada lado, torna-se visivelmente claro quem são os amigos de fato — aqueles que continuam presentes apesar de tudo, que oram sem serem lembrados, que escrevem sem aguardar resposta, que permanecem vinculados não pelo entusiasmo inicial, mas pelo amor genuíno que a distância não consegue desgastar. Esses amigos são raros, e por isso mesmo são preciosos.
O CUSTO QUE NINGUÉM CONTABILIZA
Além da solidão no campo, há ainda outro custo raramente descrito: o estranhamento no retorno. Certa vez li um artigo que afirmava que o missionário não pode mais voltar para casa porque a sua casa agora é em todo lugar e em lugar nenhum.
Quem passou anos num campo transcultural nunca mais é o mesmo. Ao retornar, frequentemente se sente mais deslocado em sua terra natal do que havia se sentido no campo.
Antonia Leonora Van der Meer confirma isso ao descrever que os missionários que retornam “com frequência se sentem confusos, exaustos, inseguros, perdidos e solitários”, vivendo o que é comumente chamado de choque cultural reverso.
O que deveria ser reintegração acaba sendo, muitas vezes, uma nova forma de solidão — a de estar fisicamente em casa, mas espiritualmente em outro mundo.
NUNCA VERDADEIRAMENTE SÓ
E, ainda assim — e aqui está o paradoxo glorioso da missão —, ao olhar para trás, posso afirmar com convicção: nunca estive verdadeiramente só. Deus me deu uma esposa maravilhosa que tem sido uma companheira fiel e corajosa em cada etapa.
O Senhor também levantou irmãos, pastores e igrejas que nos sustentaram fielmente — e ainda fazem — com oração e contribuições. Em momentos de grande necessidade, Deus providenciou pessoas certas que chegaram de formas que jamais poderíamos planejar. Não exatamente da maneira que nossa solidão exige, mas da maneira que a sua soberania provê.
Essa é uma lição que a caminhada missionária ensina de forma inegociável. A promessa de Deus é clara: “Nunca te deixarei, nunca te abandonarei” (Hb 13.5). Não é uma promessa de ausência de solidão, é a garantia de uma presença que não falha, mesmo quando tudo ao redor parece falhar.
A SEMENTE, AS LÁGRIMAS E OS MOLHOS
Há um versículo que, para mim, resume com precisão singular toda a experiência missionária: “Aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo os seus molhos” (Sl 126.6).
A missão tem choro. Tem solidão. Tem caminhada por trilhas difíceis, literalmente e metaforicamente. Mas tem também — e esta é a certeza que sustenta tudo — a promessa firme da colheita. Uma colheita que pertence ao Senhor da seara, e que Ele garante para os que perseveram com fidelidade.
O missionário não vai ao campo porque é corajoso ou aventureiro. Vai porque foi chamado. E é nesse chamado que encontra a única companhia que verdadeiramente nunca falta: o Pai que está com ele — como esteve com Jesus — mesmo quando todos os outros voltam para casa.